Flores de Inverno

Quando o inverno nos convida a ficar ainda mais no aconchego de casa, os arranjos ornamentais nos parecem as melhores companhias. Para entender mais sobre as flores típicas desta estação do ano, pedimos ajuda à jardineira, escritora e apresentadora Carol Costa!

A partir de hoje, Carol passa a ser nossa colunista mensal e aqui ela vai compartilhar suas pesquisas sobre as flores e as plantas que mais amamos. Hoje, ela nos presenteia com um texto cheio de poesia, um mergulho na vida dos narcisos, tulipas e outras espécies de uma forma única e especial.

Um banho gelado nos narcisos e nas tulipas

Deve ser que nem jogar uma água no rosto logo pela manhã, um jeito de despertar assim, ligeiro, pápum. Sempre acho que é assim que o narciso acorda de seu longo sono invernal, mas no Mediterrâneo a coisa é mais um chacoalhão do que um suave “bom dia”. É que no final de fevereiro, quando termina o inverno no Hemisfério Norte, os bulbos de narciso (Narcissus cyclamineus) saem da dormência com a água do degelo.

O que seria literalmente um “banho de água fria” em qualquer flor tropical, por lá, no entanto, é quase um cafuné. Quando o bulbo sente a água geladinha escorrer pela barriga, vai espreguiçando folhas, bocejando pétalas e rapidinho está pronto pra se encher de flores. Tulipas fazem igual. Jacintos também. Muitos lírios e gladíolos precisam dessa ducha congelante pra sair do soninho embaixo da terra e dar um olá pra gente aqui fora.

Reparou que vem daí a moda de mandar colocar pedras de gelo pra regar as tulipas? Pena que não funciona… É que depois que a planta já floriu, regar com água fria não faz mais a menor diferença. Pior, nem colocando o vaso no freezer essas flores de inverno floresceriam novamente aqui no Brasil. Vem cá entender como isso funciona!

Plantas bulbosas estocam água e nutrientes porque sabem que passarão um longo período na seca. Quando o outono terminar, elas vão amargar um vento gelado que resseca folhas de um tanto que, elas já testaram milhões de vezes, vai ser melhor perder as folhas de uma vez. É como se elas se resguardassem, sabe? Ficam lá no quentinho da terra poupando energia, tipo urso hibernando. Não fazem nada nesse período, não produzem raízes, brotos, folhas, nada!

No que o inverno dá tchau, as bulbosas são acordadas e terminam o ciclo correndo, aproveitando cada raiozinho de sol que descer dos céus, cada abelha, besouro e passarinho que surgir pra polinizar. Se exibem em mil cores pra bicharada ajudar e polinizar as flores, garantindo que centenas de sementinhas encontrem o solo e façam a nova geração de jacintos, tulipas, lírios e narcisos. As coisas estão totalmente interligadas. Acordar com o degelo + florir + atrair o polinizador correto + cair no solo amigo.

Daí, pensa que os bulbos que chegam ao Brasil, depois de uma longa viagem de navio ou avião, perdem a conexão (não a do aeroporto, a do habitat)! A gente pode até fingir que aqui é inverno congelante, mas o bulbo logo sabe que não tem os polinizadores conhecidos, que o solo é diferente, fala outro idioma. Nosso clima também é mais úmido que no Mediterrâneo, então as flores bulbosas despertam depressa, mas também morrem rápido.

A gente curte a temporada de flores de inverno como quem curte a chegada do frio pra tirar botas e cachecóis quentinhos do armário. Mimamos essas moças o máximo que der, nos despedimos das flores quando não houver mais nada a fazer e, quem sabe, guardamos os bulbos — se você mora no sul do país, pode ser que consiga convencê-los a rebrotar.

Para quem quiser seguir os passos, experimentos e novidades da querida Carol, façam uma visita ao seu site Minhas Plantas ou procurem o seu livro Minhas Plantas – Jardinagem Para Todos (Até Quem Mata Cactos).

Esperamos que tenham gostado e que tenham uma temporada de muitas cores e flores em casa!

Beijos!

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